O Mandato Britânico



O Mandato Britânico

David Mendelsson

Pesquisa: Neil Lazarus lazarus@netvision.net.il
Redação: Gila Ansell Brauner, David Mendelsson
Tradução para o português: Judite Orensztajn

Mandato

Parte de um sistema criado pela Liga das Nações, segundo o qual "povos que ainda não estivessem capacitados a se auto-governar", seriam administrados por "nações adiantadas". Com o tempo, estas nações - sobretudo as Potências Aliadas - transfeririam a autoridade à população local. Na história da Palestina / Eretz Israel, o Mandato se refere ao período 1920-1948; a partir de 1922 as fronteiras não mais incluíam a Transjordânia.

Desde 1902, Herzl*, Weizmann* e outros haviam compreendido que a Grã-Bretanha era a potência mais provável - e a mais motivada - a controlar o território de Eretz Israel após o Império Otomano. A transferência do controle só ocorreria, porém, em conseqüência da 1ª Guerra Mundial, da qual a Grã-Bretanha saiu vitoriosa.

O período iniciou-se com boa-vontade, mas desenrolou-se até um final amargo, em virtude da escalada da oposição árabe e da crescente frustração do movimento sionista por não ter conseguido realizar seus propósitos de salvar o judaísmo europeu do aniquilamento no Shoá*. O processo se expressou nos vários documentos externos, Comissões Reais de Inquérito* e nos Livros Brancos* mencionados abaixo.

Período Pré-Mandato

1915-16 Correspondência MacMahon-Hussein:

Troca de cartas entre Sir Henry MacMahon, Alto Comissário britânico para o Egito, e o Sheik Hussein de Meca, durante o período 1915-16. MacMahon propôs ao sheik, em troca da rebelião contra as forças turcas, o estímulo britânico à independência nacional no mundo de fala árabe. É importante destacar dois pontos:

1916 Acordo Sykes-Picot:

Acordo secreto entre os governos da França e Grã-Bretanha, cujos termos foram especificados em maio de 1916, a respeito da partilha do Império Otomano entre as Potências Aliadas. A Rússia foi uma das partes das deliberações e concordou com seus termos. Mais adiante, os italianos também concordaram com o acordo. De acordo com os termos do acordo, a França exerceria o controle direto sobre a maior parte da Galiléia, e a Grã-Bretanha controlaria um pequeno território em torno da baía de Haifa-Aco. O resto da Palestina - excluindo Beer-Sheva e o Neguev - ficaria sob administração internacional.

1917 Declaração Balfour:

Declaração oficial, sob forma de carta do Lord Arthur Balfour, Secretário de Relações Exteriores britânico, endereçada a Lord Lionel Walter Rothschild,de 2 de novembro de 1917, expressando o apoio "ao estabelecimento de um Lar Nacional Judaico na Palestina". O governo britânico prometia "envidar seus melhores esforços para facilitar a consecução desse objetivo".

A maioria dos historiadores concorda que a declaração britânica tinha o objetivo de promover os interesses britânicos militares e estratégicos na área, particularmente extrapolando-se do acordo Sykes-Picot*. A principal figura sionista envolvida nas negociações com os britânicos foi o Dr. Chaim Weizmann*.

O documento do Mandato que foi ratificado pela Liga das Nações em 1922 incluía o texto da Declaração Balfour palavra por palavra.

1918-20 Administração Militar Britânica na Palestina:

Após a conquista britânica da Palestina, os britânicos estabeleceram uma administração militar conhecida pelo nome de Administração dos Territórios Inimigos Ocupados.

Não obstante a emissão da Declaração Balfour em novembro de 1917, os britânicos continuaram aplicando a lei otomana na Palestina. Somente depois que a Conferência de Paz de Paris (1919) e a Conferência de San Remo (1920) estabeleceram o princípio segundo o qual a Palestina se tornaria um território sob mandato britânico iniciou-se a administração civil.

1920-48 O Mandato Britânico sobre a Palestina:

A Grã-Bretanha recebeu da Liga das Nações o Mandato sobre a Palestina na Conferência de San Remo, em 1920, embora seus termos só fossem ratificados dois anos depois. A Grã-Bretanha se responsabilizava pela implementação da Declaração Balfour*, através de negociações com "uma Agência Judaica apropriada ... facilitando a imigração de judeus ... e encorajando o povoamento do país". O Mandato reconhecia também a conexão histórica do povo judeu com a Palestina. Alto Comissário

Título dado ao chefe da administração britânica na Palestina entre julho de 1920 e maio de 1948. Houve sete altos-comissários para a Palestina, o primeiro tendo sido Sir Herbert Samuel, judeu e sionista [veja também: Livro Branco de Churchill*]. Os altos-comissários gozavam de grande autoridade sobre quase todas as esferas do governo da Palestina, embora o controle superior fosse do governo britânico.

Os sucessores de Sir Herbert Samuel foram: Lord Palmer, Sir John Chancellor, Arthur Wawchope, Sir Harold MacMichael, Lord Gort, Sir Alan Cunningham.

Livro Branco:

Declaração política oficial do governo britânico. Cada um dos Livros Brancos a respeito da Palestina se tornou conhecido pelo nome do Secretário Colonial da época; assim há o Livro Branco de Churchill (1922), Livro Branco de Passfield (1930) e Livro Branco de MacDonald (1939).

1921 Comissão Haycraft de Inquérito

Numa tentativa de acalmar o ambiente na Palestina após os distúrbios árabes de maio de 1921*, Sir Herbert Samuel estabeleceu a Comissão Haycraft de Inquérito. Embora a comissão chegasse à conclusão de que os árabes tinham sido os responsáveis pelo início da violência, alegava que as raízes do problema se encontravam na ansiedade árabe por causa dos compromissos britânicos pró-sionistas. A comissão Haycraft foi parte de um processo que conduziu à publicação do Livro Branco de Churchill.

1922 Livro Branco de Churchill:

Documento político contendo a redefinição da interpretação britânica no que concerne às responsabilidades para com o Lar Nacional Judaico (1922). O documento declarava que o governo não deseja que a Palestina se torne "judaica da mesma forma que a Inglaterra é inglesa", mas sim o estabelecimento de "um centro no qual o povo judeu como um todo possa ter, nos terrenos de religião e raça, um interesse e um orgulho". O Livro Branco confirmava o direito à imigração judaica, mas estipulava que esta não deveria exceder a capacidade de absorção econômica do país. O documento político recomendava o estabelecimento de um Conselho Legislativo composto por doze membros eleitos e dez membros oficiais. Apesar da associação deste Livro Branco ao nome de Churchill, a influência decisiva veio do Alto Comissário, Sir Herbert Samuel.

1929-30 Comissão Shaw:

Comissão de inquérito enviada à Palestina no final de 1929 após os distúrbios árabes* naquele ano. A comissão publicou seu relatório em março de 1930, embora um de seus membros, Lord Snell, tenha escrito uma opinião dissidente. As principais recomendações da comissão foram a exigência de uma declaração imediata das intenções britânicas na Palestina, o reexame da política imigratória, o estabelecimento de uma pesquisa científica sobre o potencial e o uso da terra (veja relatório Hope-Simpson) e o esclarecimento das relações entre a Organização Sionista e o Mandato.

1930 Relatório Hope-Simpson:

Comissão de um só homem estabelecida pela recomendação da Comissão Shaw nos meados de 1930, para investigar a capacidade de absorção econômica da Palestina. Hope-Simpson estava particularmente preocupado com o potencial de desenvolvimento agrícola da Palestina. Ele concluiu que a compra de terras pelos judeus tinha como resultado uma crescente população árabe sem terras, e argumentava que a imigração judaica e a compra de terras por judeus deviam ser restringidas. O Livro Branco Passfield* adotou estas resoluções.

1930 Livro Branco Passfield:

Declaração política britânica emitida em 21 de outubro de 1930, após os distúrbios árabes na Palestina e as recomendações da Comissão Shaw* e do relatório Hope-Simpson*. Passfield fazia um apelo por uma nova tentativa de estabelecer um Conselho Legislativo, e apoiava as conclusões de Hope-Simpson sobre a viabilidade e cultivo de terras. A respeito da questão crítica, a imigração, os pontos de vista do documento eram contra uma política generosa a favor dos sionistas. O movimento sionista encetou uma grande campanha contra o Livro Branco e, em carta tornada pública, em fevereiro de 1931, o primeiro-ministro Ramsay MacDonald prometeu a Chaim Weizmann que parte seria anulada.

1936-7 Comissão Peel:

Comissão real nomeada em agosto de 1936 pelo governo britânico para examinar o problema da Palestina após o início da Revolta Árabe*. Lord Peel era o presidente da comissão, mas o membro mais influente era o Professor Reginald Coupland, de Oxford. A comissão ouviu o testemunho de 130 pessoas, judeus, sionistas, árabes palestinos e outros nacionalistas árabes. Seu relatório foi publicado em julho de 1937, recomendava a partilha* da Palestina entre um Estado Judeu (ao longo de parte da planície costeira, incluindo o vale de Jezreel e a maior parte da Galiléia) e um Estado Árabe (que incluiria a maior parte do território restante, assim como a Transjordânia), com um corredor sob controle britânico entre Jerusalém e o porto de Jafa. A comissão recomendou a idéia de transferência de população, como um meio de solucionar o delicado equilíbrio populacional entre judeus e árabes no estado judeu proposto.

O Plano de Partilha* foi rejeitado pelos árabes, com a exceção de Abdullah da Transjordânia, e causou cisão no movimento sionista. No 20º Congresso Sionista*, o movimento autorizou seu executivo a melhorar os termos da proposta da partilha. Contudo, o governo britânico deixou de lado os planos de partilha, conforme evidenciado pela Comissão Woodhead* e pelo Livro Branco de MacDonald.

1938 Comissão Woodhead:

Estabelecida oficialmente para examinar a viabilidade da partilha da Palestina, conforme a recomendação da Comissão Peel*. Contudo, há poucas dúvidas de que a investigação foi estabelecida principalmente para aplacar a crescente oposição árabe ao domínio britânico, tanto dentro da Palestina (a revolta árabe havia recomeçado) como fora dela. Em seu relatório, publicado no outono de 1938, a comissão chegou à conclusão de que a partilha não era viável.

1939 Conferência de S. James

A conferência na mesa redonda do Palácio de S. James, em Londres, em fevereiro de 1939, foi oficialmente convocada por MacDonald, então Secretário Colonial britânico, para resolver o impasse entre os árabes e os judeus, sem fazer a partilha. Os britânicos, contudo, tinham bastante consciência de que havia pouca esperança de conciliar entre as partes. Bastante ilustrativa foi a recusa da delegação árabe de sentar-se à mesa com os representantes sionistas.

Chaim Weizmann* liderava a delegação judaica. A delegação árabe compreendia representantes de cinco países e dos árabes de Eretz Israel.

As partes apresentavam posições opostas:

A delegação judaica proclamou a necessidade de aumentar as quotas de imigração judaica (aliá), de mais povoamentos judeus, e o estabelecimento de uma força legal de defesa. Os árabes rejeitaram a Declaração Balfour e exigiram a proibição da imigração judaica e da compra de terra por judeus. Quando os sionistas se viram num impasse, o Secretário Colonial, MacDonald, declarou que o governo de Sua Majestade pretendia renunciar ao mandato e estabelecer um estado palestino aliado da Grã-Bretanha.

Algumas fontes concordam que a conferência foi, de fato, parte de um plano calculado que permitiria apresentar a Grã-Bretanha como um "intermediário honesto" - embora ela já estivesse, de fato, resolvida a adotar uma política conciliatória em relação aos árabes, pois a 2ª Guerra Mundial já estava iminente. Especificamente, a Grã-Bretanha sabia que os árabes rejeitariam a idéia da partilha - e necessitava de um foro para demonstrar que esta era uma opção inviável, antes de abandoná-la oficialmente.

1939 Livro Branco de MacDonald

Declaração política britânica sobre a Palestina emitida em 17 de maio de 1939. Após a recomendação da Comissão Woodhead* de que a partilha era impraticável e o fracasso da conferência na mesa redonda do Palácio de S. James, em fevereiro-março de 1939, foi emitida uma nova política para a Palestina.

Conhecido como o Livro Branco de MacDonald, ele propunha a criação, dentro de dez anos, de um estado unitário na Palestina, cujas fronteiras fossem o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão. O Livro também delineava um plano de cinco anos para a imigração de 75.000 judeus (10.000 por ano e mais 25.000 refugiados) - mas depois disso não haveria imigração sem o consentimento dos árabes. Num documento político de regulamentação de transferência de terras, em março de 1940, os britânicos restringiram severamente a venda de terras.

O movimento sionista considerou o Livro Branco "um ato de traição", acreditando que ele iria condenar a população judaica a um status minoritário no país, assim como terminava com todas as esperanças de criar um Estado Judeu.

A publicação do Livro Branco deve ser compreendida dentro do contexto mais amplo da escalada das hostilidades, anterior ao início da 2ª Guerra Mundial, sem levar em conta os terríveis problemas dos judeus da Europa, sob o jugo nazista ou ameaçados por ele. Nestas circunstâncias, era óbvio aos especialistas da política externa que não seria interesse britânico ofender a sensibilidade do mundo árabe e muçulmano. O Livro Branco continuou sendo a política oficial britânica até 1947 quando, após a entrega da questão da Palestina às Nações Unidas e sua recomendação a favor da partilha em novembro daquele ano, a Grã-Bretanha anunciou sua intenção de deixar o país.

1945-46 O Comitê de Inquérito Anglo-Americano:

Após o final da 2ª Guerra Mundial e a dívida evidente da Grã-Bretanha para com os Estados Unidos, o governo Attlee desejava muito associar os Estados Unidos à responsabilidade pela questão da Palestina. Foi estabelecido um comitê com um número igual de representantes americanos e britânicos, com a missão oficial de encontrar uma resolução para a questão dos refugiados judeus dentro do contexto mais amplo da questão da Palestina.

A principal recomendação do comitê, publicada em abril de 1946, foi um apelo ao governo britânico para permitir a imigração imediata de 100.000 refugiados judeus à Palestina. Recomendava também a suspensão das regulamentações sobre transferências de terras, de 1940, e a adoção de uma curadoria para a Palestina. O governo britânico rejeitou tais propostas.

1946 Plano Morrison-Grady:

Proposta britânica de solução para o problema da Palestina, em base de federalização ou cantonização. O plano foi sugerido por Herbert Morrison, Vice-Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha e pelo Embaixador britânico nos Estados Unidos Henry Grady, em agosto de 1946.

1947 Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina:

Estabelecido em abril de 1947, depois que a Grã-Bretanha entregou às Nações Unidas a questão da Palestina. Os onze membros do comitê investigador não chegaram a um acordo a respeito de uma solução da questão da Palestina, publicando dois relatórios: um da maioria e outro da minoria. A proposta da maioria recomendava a partilha da Palestina em dois estados: um judeu e outro árabe. Recomendava também que Jerusalém fosse internacionalizada.

Foi este o relatório apresentado à Assembléia Geral no dia 29 de novembro de 1947, sendo adotado como resolução 181. Trinta e três países aprovaram o plano, treze se opuseram e dez se abstiveram. Num momento histórico bastante raro, os Estados Unidos e a União Soviética apoiaram a resolução, enquanto a Grã-Bretanha se abstinha, prometendo apenas evacuar suas tropas em agosto de 1948. No final, os britânicos partiram três meses antes, em 14 de maio.

O Fim do Mandato Britânico

As razões da partida britânica são um assunto de considerável debate entre os historiadores. Há os que acreditam que os britânicos se retiraram da Palestina por causa dos atos de violência cometidos por algumas ou todas as organizações militares judaicas. Alguns crêem que, particularmente, a explosão do Hotel King David (julho de 1946) e o enforcamento de dois sargentos (julho de 1947) - ambos perpetrados pelo Etzel* (Irgun) - fizeram com que os britânicos resolvessem não permanecer na região. Outros acreditam que os britânicos deixaram a Palestina por causa das operações de imigração ilegal da Haganá*, que passaram a se constituir em fonte de embaraço para o governo britânico.

Contudo, outros historiadores encaram a retirada britânica da Palestina como uma parte de sua racionalização do Império, dada a péssima situação econômica do pós-guerra. No período 1945-48, a Grã-Bretanha se retirou de consideráveis porções de seu Império, inclusive da Índia - seu "brilhante da coroa". A situação econômica britânica criou também uma dependência dos Estados Unidos, que pressionava a respeito da Palestina. Dentro deste contexto, a opinião pública judaica americana trabalhou mais efetivamente em prol da causa sionista: Truman, ao assumir o posto em virtude da morte de Roosevelt, estava procurando apoio público, nas eleições presidenciais e para o Congresso - e deu atenção ao grupo de apoio judeu.


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